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Mostrando postagens de maio, 2012

TREM DO TEMPO

TREM DO TEMPO Paulo Pere Ferro e aço Tempo e espaço Cidade e sertão Estória e paixão A saudade sobre o trilho Vida, estrada, maquinista Soluça o velho estribrilho Da memória anarquista Que o ecoa, ressoa, Resiste e insiste Reter o apito final Perto do canavial Na partida deste trem Que o destino fez refém É a última viagem Vão demolir a estação Toca o sino da igreja A aldeia lacrimeja O açoite da emoção Fez calar a estação Quando o sonho acordar Gente triste irá sorrir Trem em festa vai ligar O Oiapoque ao Chuí…

HUMILDADE

HUMILDADE Cora Coralina Senhor, fazei com que eu aceite minha pobreza tal como sempre foi. Que não sinta o que não tenho. Não lamente o que podia ter e se perdeu por caminhos errados e nunca mais voltou. Dai, Senhor, que minha humildade seja como a chuva desejada caindo mansa, longa noite escura numa terra sedenta e num telhado velho. Que eu possa agradecer a Vós, minha cama estreita, minhas coisinhas pobres, minha casa de chão, pedras e tábuas remontadas. E ter sempre um feixe de lenha debaixo do meu fogão de taipa, e acender, eu mesma, o fogo alegre da minha casa na manhã de um novo dia que começa.

O POETA DIANTE DE DEUS

O POETA DIANTE DE DEUS Jorge de Lima Senhor Jesus, o século está pobre. Onde é que vou buscar poesia? Devo despir-me de todos os mantos, os belos mantos que o mundo me deu. Devo despir o manto da poesia. Devo despir o manto mais puro. Senhor Jesus, o século está doente, o século está rico, o século está gordo. Devo despir-me do que é belo, devo despir-me da poesia, devo despir-me do manto mais puro que o tempo me deu, que a vida me dá. Quero leveza no vosso caminho. Até o que é belo me pesa nos ombros, até a poesia acima do mundo, acima do tempo, acima da vida, me esmaga na terra, me prende nas coisas. Eu quero uma voz mais forte que o poema, mais forte que o inferno, mais dura que a morte: eu quero uma força mais perto de Vós. Eu quero despir-me da voz e dos olhos, dos outros sentidos, das outras prisões, não posso Senhor : o tempo está doente. Os gritos da terra, dos homens sofrendo me prendem, me puxam – me daí Vossa mão.